segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

lunch break

Hoje acordei e havia neve. Branco por todo o lado. Em cima dos carros, em cima dos bancos, em cima dos marcos do correio, em cima de partes do chão. Nos cantos onde se matam baratas com botas bicudas. Arrepio na espinha, tremelique na alma. Onde estou, quem sou, para onde vou. E o frio nos ossos. Pensar que nesta mesma cidade, há quatro meses atrás chorava do calor que me secava o espírito. Agora desejo mantinhas enroladas nos pés e sacos de água quente encostados ao peito. Agora não sei se quero estar aqui, nesta que parece ser uma vida emprestada e não a minha. O meu outro "eu", numa outra cidade e num outro trabalho. Onde inspirar é difícil e expirar é uma raridade. Onde não há tempo para nada e tudo por fazer. Onde me dão tecnologia para não me perderem o rasto, para saberem de mim, para me dizerem coisas. Coisas importantes, importantíssimas, as mais importantes e urgentes de sempre. Só para eu não dormir descansada, porque o dia acaba mas a cabeça não. Nem as tecnologias. É tudo muito rápido, rapidíssimo. Tudo rola e cada coisa feita significa outras vinte por fazer. Reorganizam-se as prioridades, fazem-se novas listas, iniciam-se outros ciclos. Tudo sempre a correr. Pelo meio visita-se o "eu" original, na cidade de sempre, nos abraços mais quentes, nas palhaçadas resistentes. E depois outra vez o regresso ao novo "eu" - o emprestado. O dos saltos altos, o dos caules nas mãos, o dos troleys para cá e para lá, o do speed. O do "agora isto, depressa", "agora aquilo ainda mais rápido". Aquele onde me pergunto se alguma vez na vida fui assim tão indipensável como pareço ser agora (pareço, só). Aquele que me convidaram a conhecer e eu aceitei, feliz. Mas hoje, neste "eu" de cá, tanto fora como dentro, cai a neve branca e fria.