terça-feira, 2 de março de 2010

half way

Aqui. No Qatar. No aeroporto. À espera. Há horas. Para trás a sensação de finalmente pôr a mochila às costas - curvadas, esgotadas - e por fim poder escapar-me. Apenas por uns dias, mas um glorioso e merecido conjunto de dias. Seis e meia da manhã em GMT e finalmente o peso - não muito - dessa mochila há muito pensada e sonhada. Não consigo evocar sensações muito melhores que esta - a de ir. Amo os regressos, mas pelo-me por uma partida. Sou basicamente uma vendida ou, como o outro senhor, uma rendida a dois amores entre os quais que não se escolhe - porque se completam. Mas a partida, dizia, essa malandra que me da speed ao sangue e me humedece as pálpebras: o percurso na madrugada escura, a ansiedade, o pânico do checkin, a certeza de que algo pode acontecer - a reserva que não está confirmada, a lima das unhas que tem de ficar, o bilhete que era para ontem, o balcão da companhia que não existe, ou eu que me esqueci da maquina fotográfica. E quando nada acontece - raridade - entro em incrédulos suores frios e agradeço ao mundo, a deus, ao buda e às hospedeiras. Desta vez assim foi. Respirar fundo.
E agora, no Qatar à espera. No aeroporto onde se cruzam e se roçam as túnicas arabescas, brancas e masculinas, com as pernas despidas e inglesinhas das bifas cor-de-rosa. As burkas, os chapéus de cowboy, os coreanos incompreensíveis que jogam pinball em computadores de todos os tamanhos, as freiras de buço e os viajantes. Agradeço o cheiro a cânfora mas dispenso o do suor alheio e o ar condicionado assassino. E esta é a minha porta de entrada no mundo que não europeu, nem americano, nem africano, nem latino-americano - e que nunca conheci. Estou em êxtase e estou feliz. Mas cansada desta espera - pele chegada, pelo destino final, o abraço, ai aquele abraço, e o olhar (que saudades). A espera pelas terras húmidas onde se descansa acocorado e se come com dedos. Estou curiosa, já só quero chegar. (E ao teu lado ver nascer, húmido e laranja, o próximo dia que aí vem. Até já.)

3 comentários:

RUTH disse...

Diverte-te pufa!
Aproveita...
Nos por cá ficamos com as saudades de ti!

Su disse...

Vera:
deixa-me dizer-te: amo as tuas imagens, as fotos, a tua perspectiva, a tua partilha!!! Fico simplesmente noutra dimensão quando vejo as tuas fotos... e oiço-as contar histórias. Pedaços das tuas histórias e caminhos que se abrem para outras histórias em cada uma das tuas fotos! Parabéns. Que tudo esteja a correr pelo melhor contigo e que continues com o teu doce sorriso de menina pequenina e sardenta!!! ;) Bjs de Santarém

Makuu disse...

Ah, sacaninha! Estás a escrever melhor e melhor e melhor.