terça-feira, 16 de março de 2010

ontem

Teria soprado 59 velas. E, no entanto, continuaria a ser um menino grande. Uma vivacidade de rapaz encafoada num corpo de homem - de homem de cabelos esbranquiçados e estrutura sólida. Rebentaria de energia pelas costuras e costuraria as nossas vidas com uma linha de graça, um pesponto de improviso. Traria mais uma história para casa, levaria outra vez o comando em vez do telefone, daria um conselho, levaria a família a jantar fora, agradeceria os presentes dizendo que não era preciso, mas emocionar-se-ia. Daria um grito às netas endiabradas e em seguida ofereceria dois gelados a cada uma. Em casa, iria para a cama com a sua revista de cães, caça e pesca e pedir-me-ia um beijo. Ou eu iria espontaneamente dá-lo porque me atraía a visão daquele homem furacão em cima das almofadas, com os lençóis até debaixo dos braços e a televisão como pano de fundo, ignorada. Os óculos na mão, os ombros nus e sardentos, os olhos a escorregarem-se-lhe de sono, a revista a cair. A ternura.
Ontem, mais ou menos teria sido assim.
(ontem, mais ou menos, assim foi)

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